domingo, janeiro 09, 2011

Morreste-me irmão...

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Durante Alguns Anos

Caminhava com lentidão e a cada passada obrigava-me a analisar o ano que agora minguava. Esta jornada era insistentemente repetida a cada madrugada deste específico dia, com o frio do solstício a limar as arestas do meu rosto em hino de companhia. Errei, sem destino, um par de segundos ou de minutos e ao dobrar uma ruela avistei-o, alí no chão, encostado a um pilarete. Era uma mancha humana difícil de discernir, embrulhada em farrapos gastos pela ondulação dos dias. Abrandei até paralisar e todo o meu corpo tremeu!

Dei meia volta e fiz o caminho inverso, agora com voracidade que não era minha. Em casa, peguei no que sobrara da ceia, confundido-a e apertando-a entre os braços. Voltei lá, de mansinho, e o corpo continuava imóvel, embora com sinais de vida. Fui-me chegando até ele e arrisquei sentar-me a seu lado. Numa troca de olhares, dotada de sagacidade, dei-lhe o perú, o bacalhau e fiquei a observá-lo, de soslaio, enquanto comia. As palavras naufragavam na tempestade do meu pensamento, não sabiam que há timbre no silêncio ancorado entre estes dois seres. Duas almas, apaixonadamente separadas pela metáfora de duas vidas distintas.

Alí sentado lembrei-me daquela menina com quem andava de mão dada lá na escola. Era a namorada na terra da inocência e caminhávamos sempre juntos, como duas pétalas da mesma rosa. Brotava de um perfume inqualificavelmente jovem, sim porque naquela idade a pele ainda não exigia um perfume de mulher. Os seus olhos refletiam promessas de uma vida escrita a duas mãos, avivadas por um sorriso entre cabelos doirados pelo sol. O seu corpo, tal como o meu, ainda não tinha sido tangido pelas formas perfeitas da adolescência nem as palavras trocadas soavam a canções de união. Esta menina é agora uma mulher e nem sei porque é que nunca mais a vi! Quer dizer, saber até sei mas não sei se justifica...

Também não sei porque é que nunca a beijei... ficarei sem saber o sabor dos seus juviais e inexperientes lábios, salgados ou húmidos, tal como nunca soube porque é que nunca travei uma conversa com aquele homem de rua naquela gelada noite de Natal... ficaram tantas palavras por dizer, encerradas nas curvas da vida... entre as paisagens do mundo vibrando à minha frente...
(24 de Dezembro de 2005)

quarta-feira, julho 08, 2009

Medo de não ter medo ou infelicidade de não ter infelicidade ou sensação de não sentir

segunda-feira, março 09, 2009

CHUVA

Hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
O meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra.

O meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher
nem na alma
quer dizer
nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim

Como hoje
que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando
e como
mas que pode a alma explicar

Por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol
porque nascem e morrem na mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas

ou como eu
que escrevo palavras para regressar ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado



Juan Gelman

sábado, outubro 04, 2008

Meu filho fazes hoje 25 anos.
Há já alguns meses que eu costumava dizer que tinhas 25 anos e tu emendavas-me sempre dizendo que não, que ainda eram só 24.
Não sei porque o dizia. Certamente não era por te querer mais velho! Talvez fosse porque o número 25 fosse mais bonito ou, sei lá… por representar uma etapa muito significativa na vida de uma pessoa.
Afinal não chegaste lá! Um estúpido acidente ceifou-te a vida no dia 26 de Agosto.
Tal como qualquer outro pai sempre sonhei para ti uma boa carreira, um bom emprego, um bom casamento, filhos, etc., etc., tudo aquilo a que costumamos associar a felicidade e o sucesso nesta vida.
Mas acima de tudo o que sempre quis e o que sempre me encheu de júbilo foi a tua presença nos actos mais quotidianos da minha vida.
Não o digo agora porque te perdi! Sempre o disse à tua mãe. Tu eras o meu Sol, eras a luz e a energia que me dava força, entusiasmo e alegria para enfrentar tudo na vida.
Tinhas o dom de com a tua presença, iluminares tudo e todos à tua volta. Às vezes não parecias um produto deste mundo, que é tão egoísta e indisponível para os outros.
Se por vezes isto pode parecer um exagero de pai ferido de morte com o desaparecimento do seu “ SOL”, as mensagens que recebemos de muitas outras pessoas neste momento tão doloroso, quase todas tocam neste ponto comum – a luz, a felicidade e a generosidade que tu irradiavas.
Contigo todos os meus momentos banais se tornavam uma aventura e um entusiasmo. Como última recordação ficou-me aquele curso de dois dias de Astronomia passados no Alentejo profundo, em que cheios de boa vontade, alguns peritos nos tentavam fazer reconhecer algumas das estrelas e galáxias do Céu. Tu, como sempre, fizeste daquele “ pífio” acontecimento, uma estadia maravilhosa para mim, tentando valorizar tudo o que havia de positivo e recuperando construtivamente todas as coisas menos boas que nos rodeavam.
Foste sempre assim, e agora sem ti, sinto-me a navegar sem rumo, sem norte, sem energia.
Muitos amigos transmitem-me, carinhosamente, que devo valorizar e agradecer os maravilhosos 24 anos em que tive o privilégio de te ter a meu lado. Como tive muitas vezes oportunidade de dizer, muito antes de imaginar que tal tragédia nos iria acontecer, era de facto um privilégio poder conhecer e para além disso viver com um dos seres humanos mais maravilhosos e bonitos que alguém pode conceber.
No entanto esses 24 anos sabem-me a muito pouco!
MIGUEL se do sítio onde agora estás não podes voltar para mim, nem sequer falar comigo, ensina-me o que devo fazer para poder voar até ti e voltar a beber da tua energia e luminosidade.
Aqui.. agora... sinto que uma grande parte de mim desapareceu, e a que restou é insuficiente para suportar a tua ausência e dar aos outros entes queridos que cá ficaram e também te perderam, o apoio que eles merecem e necessitam.

IN MEMORIAM

Desejei-te, certamente, porque vieste ao mundo na inocência do meu segundo aniversário! Descreveram-se 25 anos, adoçados com outros presentes, novos sorrisos, embora sem eco face à insustentável maravilha do teu ser!

A união de um óvulo e de um espermatozóide é um instante fatidicamente decisivo e as dez horas e trinta e cinco minutos de uma manhã de terça-feira Outonal, num longínquo ano de 1983, marcaram o compasso cardíaco de todos os que, tal como eu, se cruzaram na tua vida. Surgiste forte e saudável, com uma alegria e fúria de viver que abraçaram toda a tua infância e adolescência.

Vieram depois as ondas do firmamento, e as teias da meninice cristalizaram-se e fizeram de ti um protector. Protector da vida animal, da orla do mar e espuma que aquece o olhar ao espreitar a areia, das grandes causas e dos mais idosos, do gatinhar de singelas crianças e de todos os que procuraram um ombro amigo... Pela tua mão muitas amizades se fizeram, muitos namoros surgiram, muitos grupos se contruíram.

Partiste acompanhado pela minha habilidade para escrever... deixando-me labaredas na garganta e lagos salgados na fronteira entre os meus olhos. Ficou tanta coisa por dizer... e nem tivemos o direito a despedida... Se pudesse trocar todos os anos que me restam de vida por mais um minuto de vida contigo! Abraçar-te com lentidão e com lentidão ver-te partir... gritando que te amo meu irmão...

Sabes? Parece irónico quando me lembro de me dizeres, com profunda tristeza, que o teu telefone não tocava, sabendo eu agora que tantas almas choram por ti e que tantas paixões e amizades se revelam! A vida é ingrata e só é valorizada, tal como a obra do artista, quando se desvanece.

Será que me consegues ver ou ouvir? Será que os sonhos que tenho tido têm um significado ou um vínculo muito mais encantatórios e genuínos do que a simplicidade da minha mente ao assumir o papel de realizador? Será?

Imagino-te aqui ao meu lado agora que, com dificuldade, busco estas palavras. Imagino-te na borboleta pigmentada que pula e voa na pradaria, nas ondas do mar pensante que assobia e molda as rochas, na dor de ombro ou de costas que me acompanham, nos últimos raios de sol ao introduzirem as noites clandestinamente frias, na música do vento ou na música em si que surge para nos fazer crer que o divino existe...

Desapareceste com a mesma força que ingressaste na minha vida e nesta manhã dos 25 anos que te foram ceifados, exactamente à mesma hora e minutos que nasceste, tenho o orgulho e a tristeza de te afirmar que és a minha alma gémea pelo simples e complexo facto de me completares em todos os tentáculos que serpenteiam, com astúcia, a espiral da vida. És o gigante que me abrigou!

Ao longo da tua vida fui pensando o que é que realmente te apaixonava, o que é que realmente te intrigava e te fazia querer viver, o que é que te faria perder tardes de descanso ou manhãs floridas. Só agora encontrei a resposta – ajudar os outros! Preocupaste-te sempre muito com todos, saindo prejudicado na maioria das vezes. És um ser divino, pois deste sempre muito mais do que recebeste e a beleza está em tê-lo sempre feito sem esperar nada em troca até ao fim dos teus dias...

Sinto muito a tua falta manolas... um beijo meu querido...

sábado, junho 21, 2008

TANGO...TANGO...TANGO...TANGO

Retraem-se as luzes, ao fundo Gardel canta baixinho, ouvem-se os sussurros das mulheres que sentadas esperam um convite para se lançarem à pista. Só com um olhar ela percebe que a quero, pousa o copo de vinho, levanta-se, pausadamente, desliza pelo soalho antigo, o vestido colado ao corpo, os seus olhos penetram os meus… Um abraço forte, quente, encosta o peito dela ao meu, que lateja ao adivinhar a comunhão que se aproxima, dois corpos num só, a sensualidade enche a sala, enche o meu coração, e voamos ao som compassado da milonga.

Lá fora chove. As gotículas que entram pela janela entreaberta dissolvem-se nas lágrimas de lentidão que descem pelo meu peito. A paixão e o suor confundem-se e fundem-se, e por baixo da sua camisa listada sinto um coração que treme… O som da sua respiração entranha-se nos cabelos meus que sinto nas costas nuas, e logo abaixo a mão dele, quente, fria, minha…

É o meu quarto dia em Buenos Aires e a primeira noite em que arrisquei sair. Queria pôr à prova o meu tango por necessidade de o respirar e beber. Vestido a rigor, bigode e pêra aparados, água-de-colónia e uma vontade infinita para seduzir. Tive sorte, parece que a encontrei…noite, possibilidade e ansiedade… Dançando passo a passo, face a face, percebo que o seu corpo responde, em total harmonia, aos estímulos do meu. Procuro-a no olhar e faço-a girar sobre mim. Sinto um formigueiro que me invade e um suor unindo a nossa pele. Nunca a música fez tanto sentido, adornada pelos contornos dela no prolongamento dos meus.

Na pista, cruzam-se silhuetas e vestidos carregados de vida. Em redor, nas cadeiras e mesas espalhadas ao acaso, reparo que nos observam. Senhoras faustosas com leques em tom de sedução e cavalheiros empunhando copos que lhes permitem saldar um convite para dançar. Respira-se um ar quente que nem mesmo as vetustas ventoinhas, suspensas no tecto, conseguem dissipar. A música é propagada para o exterior, muito embora a magia do lugar desapareça, como o eco, nos rostos anacrónicos de quem passa lá fora. Morrem por não conseguirem adivinhar o calor daquela estridente noite e até lhes peço que permaneçam na escuridão. Esta é uma noite para quem pede paixão, para quem procura um amor musicado. A música termina, olhamo-nos demoradamente para logo nos abraçarmos de novo ao som de uma música que nos chega do outro lado do oceano. Um fado… A entrega é agora ainda mais profunda. A minha perna sobe pelo seu corpo, depois roça a cortina de veludo que marca a fronteira da pista.

E quando a tanda chega ao fim demoramos a largar o corpo um do outro. Na varanda molhada pela chuva de Verão, banhada agora por uma lua quente, acendo um cigarro. Ela dirige-se para junto das outras mulheres. Senta-se, entreolham-se, e nenhuma precisa dizer o que todas adivinham: pelo tango começou uma estória de amor, uma estória de vida…
___________________________________________________
Dança a quatro mãos e dois corações por Joana R. e Pedro... primeiro vê-se o som e depois ouve-se a luz...continua a tangar!

quarta-feira, junho 04, 2008

A ESPERA II

Dois corpos, tão próximos ou tão afastados quanto a dúvida está da certeza. Ela sente os pés dormentes, depois as pernas, formigueiro este que caminha em sentido ascendente, dominando-a. Existe uma pausa e o formigueiro instala-se na sombra da sua nuca - uma bomba de suspiros, uma revolução de incertezas e expectativas.

Olha-o bem nos olhos, já sem o escutar e espera, inerte, que ele avance. O momento é propício. As mãos dele tocam-lhe o rosto, acariciam-lhe o volumoso cabelo negro. Tenta não pestanejar para que não padeça naquele instante em que lhe é permitido ancorar-se às emoções. Quer acelerar o processo e estendê-lo no refrão mas o seu corpo e mente parecem marionetas nos braços deste homem.

Os seus húmidos lábios anseiam por aquele beijo. Esperam a fatal união, ensaiada em tantas noites. Quer sorver aqueles lábios e senti-los - carne com carne! Ela sabe que o primeiro beijo dita tanta coisa, retribuindo-lhe a indubitável certeza de que este homem é o tal.

Toda ela treme, respira com a genica dos dois pulmões e espera uma vez mais por ele. Não tem coragem para avançar e, de mente encantada com o turbilhão de emoções, nem se apercebe do respirar dele, também ele ofegante.

Ele aproxima-se com vagar hesitante por estar a avançar em terreno desconhecido no chão que ela pisa. Dissolvem-se os odores de ambos, as sombras assumem uma escultura indecifrável, mãos unidas e peitos encostados, arquejantes, lábios trémulos, o dele, o dela no indefensável magnetismo…e por fim o beijo surge numa união de facto…e o tempo esquiva-se, não quer passar por ali…

A cortina cai, a plateia aplaude, erguendo-se em tom de total rendição e ouvem-se os assobios… “bravo”, “encore”… “bravo”…

A ESPERA

Ele procura um sinal dela. Espera pela carta que não recebe nas palavras que foram apenas escritas na mente dela, aprisionadas e atiradas ao vento…

Espera por um telefonema. O telemóvel não toca nem vibra e quando toca ou vibra assusta-se e o coração estremece e rejuvenesce um pouquinho… mas nunca é ela…

Ele conta os minutos, contas as horas e os dias sem rasto. Sente a falta dela como se de uma perna amputada se tratasse, não havendo dia ou noite em que não sinta uma cãibra, uma dor, uma cócega no tal membro que já não lhe pertence. É como se sente sem ela, sentindo-a onde esta já não se encontra. Vê-a sempre que resolve fechar os olhos, fechando-os sempre que se sente só.

Uma dúvida ou esperança pairam no ar – pergunta-se se ela por vezes divaga. Se sente saudades dele. Se alguma vez digitou o seu número, cancelando de seguida a chamada. Se já visitou a sua morada ou se deixou a tal mensagem por enviar, aquela inacabada, reticente e hesitante como o espelho da respectiva alma naquele instante. Será que ela ainda se lembra dele? Será que certas músicas, lugares, aromas, gestos, pessoas, ideias ainda a fazem recordar-se?

Se ele ao menos soubesse…ou suspeitasse o fluxo de sentimentos encarcerados no redutor coração dela. Se ao menos adivinhasse! Talvez não preenchesse os dias de incertezas, a luz de escuridão e a pele de sofrimento…

Já recapitulou e rescreveu todos os momentos vividos, todas as caminhadas a dois, todas as passadas feitas de amor. É um livro que conhece bem, que não quer aglutinar na erosão do tempo…

Fecha novamente os olhos, faz um convite ao sono para a buscar no último lugar que partilham. Ela surge, com formatação radiosa, apaixonante e, com um abraço intemporal, resgata-o da solidão. Estão finalmente juntos, um corpo, dois corpos, vacinados onde o sentimento habita, sonho ou realidade…
Site Meter